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Situações de emergência - by SammyFreitas [crônica]

Posted by Samantha Freitas on 30 de abril de 2015 06:00 in , , , ,
Situações de emergência


Kalleen dá entrada no hospital cheia de dor e com um inchaço e vermelhidão nas costas. Por achar ser algo simples, veste chinelo, camiseta e uma bermuda velha de pano. Antes tivesse ouvido sua mãe: “Sempre esteja arrumada, use roupas melhorzinhas se for à rua mesmo que seja só para comprar pão.” Não levava a sério e ria, dizendo que não ia acontecer. E a mãe, com sua doçura natural dizia: “Um dia, acontecerá uma emergência e você pode estar de calcinha furada!” Sempre desdenhou... Maldição de mãe pega!

- A senhora terá que ficar internada. – o médico foi categórico.
- Como é? Mas não estou vestida!
Foi submetida por um olhar inquisidor do médico que mirou-a de alto a baixo.
- Sem roupas? Para mim, parece que a senhora está vestida. Ou não enxergo bem ou a senhora fez uma combinação estranha de blusa cinza com bermuda rosa?

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Sempre que acontece a troca de plantão, as coisas sempre se tornam um pouco confusas. Kalleen, gemeu e reclamou....
- Enfermeira, estou sentindo muita dor e frio...
- Só um instante que já volto....

Passadas 2 horas, ela percebeu que a equipe do plantão havia mudado... por isso continuava abandonada...


Por fim, revoltada, Kalleen levanta num ímpeto e corre até a recepção com uma enfermeira nova em seu encalço. E lá, reclama pela demora na internação...

- Cheguei a esse hospital de manhã, já são nove da noite! São pelo menos 6h sentindo dor – revela aos gritos e tremendo muito.

Após o piti, rapidamente foi conduzida de volta ao leito da emergência onde lhe foi administrado remédio para dor e um cobertor trazido. Ao perceberem que a temperatura de seu corpo estava elevada, um termômetro informa que a febre passava de 39ºC. As enfermeiras cochichavam:

- Coitadinha, estava delirando...

Apesar do cansaço e da dor, mentalmente Kalleen sorria: “Ahhhh... O poder de virar a baiana...”

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Internação:

Segundo Dia:

Visita do filho amado que chega justamente na hora do almoço. Ele olha os talheres não resiste à curiosidade:
- Mamãe, por que os talheres são de plástico?
- Porque aqui, Will, é igual à prisão. Eles têm medo de uma rebelião de faquinhas de plástico ou quem sabe que a gente use a mão puncionada para cavar um túnel com essa colherzinha...


Terceiro dia:

Já estava há dias quase sem sinal no celular e com abstinência de internet... Mas nada se comparava ao desespero quando percebeu que já era domingo...

- Doutor, eu vou sair hoje?
- De jeito nenhum! É uma infecção grave, importante e precisaremos pelo menos de 7 dias de antibiótico para que ele faça o efeito desejado.

Ela arregala os olhos e grita:

- 7 DIAS? 7 DIAS? MEUS DEUSES! VOU PERDER GAME OF THRONES HOJE!





Quarto dia:

Familiarizada com a rotina e conhecendo quase todos os técnicos e equipes dos plantões, sempre se mantinha sorridente e simpática, conquistando o carinho de todos. Até que um novato gigante, no estilo de John Coffey* entra no quarto e diz sucintamente:

- Banho?

Um pouco intimidada com seu tamanho, ela vai ao banheiro. Escuta a porta do quarto se fechar e resolve vestir-se no quarto, já que o banheiro estava encharcado.

Ao notar o ar condicionado desligado, cedeu pontos a “John” - já que ela saía de um banho escaldante. Até se deparar com a janela escancarada que expunha seu corpo nu aos operários da obra em frente ao hospital. Estes assobiaram cantadas impublicáveis, mas mesmo assim, teve presença de espírito de fechar a janela rapidamente. Um pouco mais aliviada, olhou ao redor e sentiu falta de algo. Arregalou os olhos quando viu a cama. Onde estava seu travesseiro rechonchudinho? Aquele que tinha escambeado por três gelatinas  e um mingau!

Procurou a campainha de emergência e Coffey retorna...
- Oi... você sabe onde está meu travesseiro gordinho?

Ele tentou argumentar, mas não tinha muitas palavras:
- Tirei para arrumar a cama coloquei aqui do lado... Tem outro aqui...

E mostrou um esquálido travesseiro da Etiópia completamente diferente do seu obeso americano.

Ela sabia que no hospital, as pessoas perdiam toda essa noção de pessoalidade. E se desviarem os olhos por um instante que fosse, perdiam tudo aquilo conquistado a duras penas.

Dessa vez recusou perder sua dignidade, chamou a enfermeira chefe, mas ao invés de um segundo piti, lágrimas de frustração jorraram de seus olhos. Rapidamente não veio apenas um, mas dois gordinhos para que pudesse dormir em paz. 

Nunca subestimem o poder de uma lágrima...



*John Coffey, Green Mile – A espera de um milagre


Quinto dia:

Já conformada com a internação, sua única preocupação era dormir bem... Acordando de hora em hora e tendo pesadelos recorrentes, sua pressão começava a subir. Em meio aos delírios da febre gemeu:

- O leão... leão... o leãooooo

Entre as enfermeiras corria uma aposta... Seriam os dez anos do Rei Leão? Aslan, o leão de Nárnia?

Até que ela esclareceu:

- Não, não... Está quase findando o prazo de entrega de declaração do IR e estou presa aqui... Vocês sabem quanto é a multa? Cento e sessenta e cinco reais! Muito mais do que tenho a receber!

É... Lá vem o Leão tirando o sono até de quem está doente...




Sexto dia:

Seu sobrinho de 5 anos, Edward, foi visitá-la. Seu nome, uma homenagem ao primeiro grande sucesso de Johny Depp, Edward Mãos de Tesoura, certamente não é um nome muito comum no Brasil.
Mesmo assim, ao chegar no quarto, o crachá continha seu nome singularmente abrasileirado: EDORDI





Sétimo dia:

Por volta de 4:20 a.m. a medicação termina e ganha o direito de ter duas mãos livres para dormir para o lado que melhor lhe aprouvesse.

Virava de bruços, para a direita e esquerda, com tantas opções que sequer conseguia decidir a melhor maneira de se esticar. Até que seu braço esbarrou no controle da cama que caiu entre a grade e o colchão.

Foi o suficiente para que ele fosse pressionado e começasse a subir a cama sem parar. Sentou rapidamente, buscando o controle da situação, quando percebeu que não tinha alternativa...

Com seus pezinhos balançando, lembrou-se das aulas de parkour e com a graciosidade de um elefante, saltou.

Resgatou o aparelho, reduziu a cama para o tamanho ideal e ao invés de voltar para cama e usufruir de sua liberdade, sentou-se no sofá para escrever esta crônica...







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