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O dente da discórdia by SammyFreitas [crônica]

Posted by Samantha Freitas on 3 de janeiro de 2015 06:00 in , , , ,


Se tem uma coisa que sempre me falaram, é que você pode namorar quem quer que seja. Homem, mulher, rico, pobre, branco, preto, inteligente, tapado... mas se tem algo que todas as pessoas tem em comum, um preconceito quase que unânime, é o fato de namorar alguém que não possua dentes. 

O quê? Eu disse dentes? Pois é, disse sim.

Essa história aconteceu há muitos anos (e bota anos nisso!) na minha época adolescente. Reza a lenda que eu era muito CDF¹ e por causa desse pequeno detalhe, era difícil arrumar um namorado. Eu até queria, mas os rapazes estavam mais interessados nas meninas descoladas da sala. 

Para compensar essa falta, criei um jornalzinho bem humorado que era a minha perdição. A maioria dos alunos sabia quem editava e esperavam ansiosamente as edições três vezes por semana, onde eu esquecia toda a minha sobriedade e usava de observações e sutilezas para zoar colegas e professores. A única edição rodava de mão em mão na sala até que todos tivessem lido. Algumas vezes, no meio da aula de matemática, ouviam-se risadinhas abafadas. Professora Rosileida nunca olhava para a turma. Sempre focava em mim, que obviamente disfarçava e fingia que não era comigo.

Mas onde está o dente? Paciência, gafanhoto! Vamos chegar lá... E aí, o jornalzinho rolava e quando comecei a ficar sem idéias, aproveitei um trabalho que estávamos fazendo sobre Teoria de Conjuntos. O meu grupo escolheu uma pesquisa sobre três tipos de carro - Ford, Fiat e GM. Eu, como uma boa leiga, sequer sabia que tipos de carro tinham em cada fabricante. Tampouco gostava de trabalhos em grupo. Portanto, fiz minha contribuição, mas saí em busca da batida perfeita... ops... saí em busca de um tema melhor. 

Dei um sorriso maroto, elaborei a pesquisa e me armei de toda cara de pau que me era peculiar. Optei pelo recreio para começar minhas pesquisas. Procurei um grupinho e me aproximei. 

"Boa noite (pois é, galera, meu curso técnico era à noite!)... Então... Eu sou da PD2B e estou fazendo um trabalho de Teoria de Conjuntos. Gostaria de responder a três perguntas? Antes que me diga não, tenho um exemplar extra do FB urgente... e assim as pessoas rapidamente se convenciam a responder minhas 5 perguntas:

1. Você namoraria um gordinho?
2. Você namoraria uma pessoa bonita, até mesmo magra, mas sem 2 dentes frontais ou laterais?
3. Você prefere o gordinho ou o desdentado.
4. Você prefere não namorar ninguém?
5. Você namoraria os dois (não necessariamente ao mesmo tempo)?

A galera que me perdoe a palavra, mas a pesquisa foi um puta sucesso. A notícia da pesquisa se espalhou como rastilho de pólvora e logo, o universo escolar me procurava em hordas para responder às questões.

A verdade, é que todo mundo queria saber o resultado da pesquisa. E corria um boato, que a pesquisa era, na verdade, inspirada em certos coleguinhas da turma de ADM e Eletrônica. Balela. Eu só estava curiosa sobre o comportamento adolescente (não que eu não fosse uma, mas com um ego que não cabia no peito, apesar de minhas deficiências relacionais, eu me julgava um pouco superior em termos de nerdice e inteligência)

Se eu disser para vocês que lembro dos resultados exatos, estarei mentindo desbragadamente. Eu não lembro de números exatos. Mas lembro com uma precisão quase cirúrgica das porcentagens. 

Gordinhos, nem dessa vez vocês foram recompensados. Mas os banguelas também não. A verdade é que a galera adolescente tinha escolhido não namorar nenhum dos dois. Mas eu não publiquei o resultado correto. Como eu queria analisar o comportamento da galera, usei de artifícios e alterei informações para que os gordinhos ganhassem por pouco dos banguelas. Praticamente usei a imprensa marrom através do FB urgente com uma notícia bombástica: "Os gordinhos são melhores de beijar do que os banguelas"

O mais engraçado na história, é que nesta época, eu nem era gordinha. Pelo contrário. Magra feito um varapau e tirando o cabelo esquisito dos anos 80 eu era até uma ruiva bem simpática! E a manchete era outra piada. Que parâmetro eu tinha sobre beijos, se NUNCA tinha beijado ninguém?

Choveram reclamações. Bilhetes e mais bilhetes indignados de que beijariam até as paredes, mas nunca os banguelas.

E relembrando dessa história, foi com muito pesar que uma amiga me disse com todas as letras: "podemos fazer caridade. podemos beijar homens feios, pobres, burros, esquisitos, mas por favor... precisam ter todos os dentes, ainda que postiços"

Esse rebuliço todo, essa lembrança, foi por ter tido um acidente dentário. Pois é. Quase chorando, exageradamente gritava com uma amiga no telefone: "Eu nunca mais terei ninguém porque quebrou um pedaço do meu dente! Lembra, da nossa adolescência?"



Lembrei e lamentei... Estou parecendo o Tião Macalé²! Ele não vai me querer mais porque o hálito de halls e cepacol escapará pela fresta do dente!



E rindo, ela deu um basta na história: Mulher de Deus, acalme-se! Você tem todos os dentes! Só quebrou a pontinha! Nada que um restauro a laser não resolva. E pode parando de show, que quem dá piti nessa amizade sou eu!

Dei um sorriso torto preocupada demais com a pontinha quebrada, porque às vezes é mesmo bom dar uma exagerada para desopilar o fígado³. 





E você? Namoraria um desdentado?


¹ CDF - cabeça de ferro - pessoa que estuda demais
² Tião Macalé! Antigo personagem dos Trapalhões que tinha um bordão: "Ih, nojento, tchan" e ele tinha vários dentes da frente faltando... (oh god! explicar quem é Tião Macalé é uma prova real de que cada referência que eu faço aos anos 80, mais eu vejo como sou antiga...)
³ Desopilar o fígado - outra gíria antiga, mas que eu AMO de paixão. É o mesmo que ficar de bom humor, fazer a higiene mental, relaxar, sorrir mais...







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Uma longa jornada de volta para casa - by sammyfreitas [crônica]

Posted by Samantha Freitas on 1 de janeiro de 2015 21:28 in , , , , , , , , ,





Copacabana... Reveillon... Duas palavras diferentes, mas que no RJ, estão intrinsecamente ligadas.

Muita gente vem de fora para conhecer a famosa queima de fogos. Eu nunca liguei. Embora seja carioca da gema, assistia sempre de casa, no conforto do meu sofá com ar condicionado ligado a mil. 

Justamente por ter sido um ano diferente, fui convidada por amigos e no fim, apesar de todo o pavor de multidão e muvuca e não me sentir confortável no meio de tanta gente, armei-me de coragem e fui. 

Que fique claro... Não sei se sou capaz de descrever tudo o que senti quando estava lá. Diante dos fogos. Eu me sentia uma criança assistindo um grande presente de natal. As imagens, as explosões, vinham na minha direção, e mesmo eu estando tão longe, me sentia num filme em 3D cujas imagens saltam da tela na nossa direção. Tudo que a gente vê ali, é emoção em forma de luzes. E eu nem estava assim, assim animada para assistir. Seja quais forem as expectativas que você leve, olhar os fogos supera todas. Desliguei do mundo e ouvir o assobio seguido de ligeiros pipocos iluminados... Explosões acima de explosões...  Não dá para não sentir nada. Então, fecho esse parêntese para dizer que qualquer coisa que tenha acontecido depois, não foi suficiente para embotar a magia que senti nos 17 minutos em que os fogos duraram.

Então, embriagada de felicidade, por volta de 3 da manhã resolvi voltar para casa. E foi aí que começou uma longa jornada de volta para casa. 

O primeiro passo, foi pegar o metrô. Estava cheio, mas nem tão lotado assim. Fiquei com medo de ser arrastada para fora do metrô. E de fato, numa certa estação, eu fui arrastada para fora com a multidão. Até tentei voltar, mas sabe aquelas cenas de desenho animado em que a pessoa se vê tentando pegar o ar... Pois é. Se meus planos eram ir até a Saens Pena, quando me vi fora do vagão, mudei de idéia. Até que ficar na Central não era mau negócio. E de ficar tanto tempo embaixo da terra sob a iluminação ofuscante, quando comecei a sair, quase fiquei surpresa por ainda estar tudo escuro...

Geral entrou na grande estação Central do Brasil. Tudo muito civilizado, por mais incrível que isso possa parecer. Eu não tinha me informado como seria a operação especial de ano novo e foi uma grata surpresa encontrar os trens em funcionamento.

Corri toda serelepe para as catracas e rá! Passei! Parei e sorri para o guarda, que sorriu de volta quando lhe desejei Feliz Ano Novo e ofereci um chocolate. Fui até a plataforma e até vi uma luz saindo, mas logo fiquei bem surpresa! No "meu" trem havia uns 12 lugares para sentar! Mal tinha começado 2015 e não podia acreditar na minha sorte!

Sentei num vagão novo, com ar condicionado, poltrona confortável e até mesmo virada para o lado em que o trem seguiria... Porque a poltrona que fica de costas sempre me dá enjôo.

Passaram-se alguns minutos e as portas permaneciam abertas. Já ia levantar e procurar alguém que pudesse informar quando o som da voz eletrônica saiu dos microfones fazendo os anúncios.

Vou repetir as palavras EXATAS, porque eu as ouvi de 3 em 3 minutos até a saída do trem...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 57 minutos".

Pensei logo! Que legal! Saindo em 7 minutos. Maldita surdez seletiva. 

Rapidamente a 'mocinha' do microfone desfez meu engano e repetiu meu martírio:

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 54 minutos".

Dessa vez eu ouvi. E quase surtei. Perguntei para o senhor a meu lado: "Ela disse 54 minutos???"

Ele suspirou desanimado e explicou com um pesar no coração: "Sim... são trens funcionando em horário especial. Normalmente nem temos trens de madrugada, eles estão saindo de hora em hora. Um saiu alguns segundos antes que eu e você chegássemos aqui."

É sério que eu tinha perdido o trem por segundos? Nunca me arrependi tão amargamente de ter parado e sido gentil em desejar um Feliz Ano Novo!

Encostei a cabeça na janela e fechei os olhos. Mesmo num estado de semi-consciência, ouvia todos os apitos e tomava cada vez mais raiva da mocinha que insistia em anunciar a cada três minutos...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 21 minutos".

Em algum momento que não consigo precisar, eu peguei no sono. Engraçado como a gente sempre acha que possui um timing interno para nos acordar. A última coisa que lembro ter ouvido na madorna foi "Próxima estação Marechal Hermes". Não era tão perto que me fizesse abrir de vez os olhos. Acabei pegando no sono para valer. E acordei assustada ao ouvir: "Próxima estação: Santíssimo..."

Com o perdão da palavra, meus olhos se abriram imediatamente e gritei um sonoro Puta que o pariu! Jura que já passamos de Padre Miguel? 

O mesmo senhorzinho olhou para mim, balançando a cabeça e me recriminando  com os olhos por palavras tão chulas no primeiro dia do ano... 

4 estações. E nem podia voltar, porque né? Os trens extras eram para ir para Santa Cruz. Para ir à Central, o primeiro trem no feriado, sairia às 4:40 e depois somente 5:40. Olhei rapidamente para o relógio, fazendo meu cálculo mais rápido de mulher grogue ainda virada do Ano Novo... Eram 5:10 - o que significava que o trem tinha acabado de passar - merda... eu e meus erros na janela de tempo... Teria que esperar pelo menos mais 1h pelo próximo. 

Não ia rolar. Sai da estação e fui à rua principal. Sou safa nesse tipo de situação e mesmo com a mente ainda ligeiramente embotada pelo cansaço, rapidamente cheguei à Av. Santa Cruz e sabia que 90% dos ônibus que passam por ali, chegam ao Shopping de Bangu. Nem sentei porque tinha grandes esperanças que viesse logo um ônibus (e vamos ser honestas... se eu sentasse, poderia facilmente pegar no sono de novo!)

Logo avistei o 397 - Campo Grande x Carioca (via Brasil) tomei o cuidado de ver passando na frente do ônibus a palavra "Bangu" - opa! servia! Dei um sorriso maroto, fiz sinal e entrei.

Sentei toda feliz enquanto o ônibus corria alucinadamente - "Vou chegar rapidinho em casa!"

Só queria banho e cama... Mas não... a vida... a vida é uma caixinha de surpresas... O ônibus saiu do caminho que estava percorrendo e virou na direção que julgo ser a da Avenida Brasil. Fiquei apavorada! Tanto sacrifício para sair da Central do Brasil, imagina voltar para o Centro agora!

E aí, gente, me desculpa, mas fui OBRIGADA a soltar baixinho uma série robusta de imprecações. Levantei em tempo recorde e corri até a trocadora, me equilibrando da melhor maneira possível no ônibus que voava pelo asfalto e já subia um viaduto....

- Moça! Moça! (até agora não sei o porquê de tê-la chamado de moça... no fundo, eu não sei, talvez por educação, talvez por pressa - mas a triste realidade é que a trocadora parecia ter uns 200 anos!) Esse ônibus não passa no Shopping Bangu???

Ela olhou para mim e aquele hiato de poucos segundos pareciam horas quando via o viaduto terminando e a possibilidade de saltar seja lá onde eu estivesse, se extinguindo...

Uma das poucas pessoas que se mantinha acordada no ônibus (o cara estava lendo, ganhou meu respeito!) chamou e disse: "Senhora!" (e aí meu respeito acabou na  mesma hora!) Ele até passa no shopping, mas deve estar querendo adiantar a galera que está indo trabalhar e virou antes... Mas não se preocupe. Já, já passamos para o outro lado (e eu quase em pânico) e você poderá saltar em frente à estação Bangu. Sente aqui do meu lado que eu te aviso.

Fiquei MUITO aliviada, porque agora, já tinha noção de onde estava e o melhor, conheço super bem a área em que ia passar. 

Desci no ponto certo, ainda lembrando dos fogos e desejando Feliz Ano Novo!

E aí vocês pensam que terminou? Ora, mas é claro que não! Quem disse que as coisas são fáceis assim???

Atravessei todo o calçadão... não sem antes ver o estrago que o temporal tinha feito na véspera. Um cenário apocalíptico (se não acreditam, vejam link do vídeo que postei lá embaixo!) - uma pena meu celular estar totalmente sem bateria porque até árvore arrancada do asfalto e caída por cima das telhas do calçadão de Bangu, tinha ali pelo chão.

Já eram quase 6h e minha jornada não tinha terminado. Terminei de atravessar o calçadão e me perguntei se um ônibus que me deixasse em casa ia demorar muito... E aí... mototáxis! Corri até o primeiro e perguntei quanto custaria me deixar na porta de casa (trajeto curto, menos de 10min) e o mocinho pediu: R$ 15. Achei mega salgado. Em geral pago R$5! Mas era feriado, não eram nem seis da manhã e eu estava morta! Só queria chegar em casa. Pois sim. Quando entreguei a grana e comecei a subir na moto... Meu ônibus que eu não pagaria nada, devido ao bilhete único passou na minha frente.

Fechei a boca e antes que eu desistisse da moto, o rapaz arrancou, quase me jogando no chão!

O percurso foi super rápido e logo estava abrindo a porta de casa. Olhei para o relógio e ele acusou 6:13. Eu nasci no dia 13/06.

Achei o número bem cabalístico. 

É melhor acreditar que esse será um ano fodástico e de muitas conquistas mesmo que tenha começado com uma jornada torta...

Feliz 2015! Feliz Novo Ano para todos nós! E que venham mais inspirações para relatos doidos!










Link do Temporal em Bangu no dia 31/12/14

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