4

O Mulão Ruge

Posted by Marcinha on 21 de setembro de 2013 06:00 in , , , , , , , ,
Olá leitores e retalhenses!
Para apresentar este texto, eu gostaria de fazer um adendo. Embora eu costume tomar sempre cuidado para que meus contos estejam escritos de acordo com o aceitável, neste em especial tomo algumas liberdades poéticas. Existem várias palavras grafadas em língua estrangeira, em especial por causa da nacionalidade das personagens. Também existem várias palavras grafadas com "r" duplo, para marcar o sotaque francês de uma das personagens. É algo que eu realmente acho um charme, esse "r" forçado quando franceses falam Portugês. Peço perdão a quem essas inovações incomodarem, mas não pude abrir mão delas para essa história.
Por fim, esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

O Mulão Ruge


Francine deu a última olhada no letreiro novo de seu estabelecimento comercial. "Centro Recreativo e Terapêutico O Mulão Ruge" estava escrito em néon, com letras elegantes sobre a porta de vidro dupla na entrada. Era um trocadilho interessante, bastante sarcástico como ela própria; além de aproveitar a semelhança sonora com a expressão Moulin Rouge ainda fazia alusão às gírias aprendidas no Brasil. "É aqui que o mulão ruge, mon cher", pensava ela consigo mesma enquanto um meio sorriso travesso lhe coroava a face empoada.
Cruzou a porta rumo ao balcão do pequeno bar que servia como recepção, ouvindo o suave "toc toc" de seus saltos 15 no assoalho de madeira. Serviu-se de um copo de uísque, e o saboreou lentamente com os cotovelos apoiados sobre o balcão de madeira rústica. Tamborilou as longas unhas vermelhas sobre o bar umas três vezes, antes de se empertigar decidida. Buscou na agenda de seu smartfone a número de Giovanna, e iniciou a ligação. Queria confirmar se sua sócia chegaria da Itália em tempo hábil para a inauguração do Mulão Ruge.
Três semanas depois da inauguração, o estabelecimento estava bombando, como se diz aqui no Brasil. Francine estava eufórica com o sucesso e os lucros que sua idéia lhe trouxera. Criara um ambiente discreto, revestido da fachada de um bar temático exclusivamente para homens. Por fora, parecia um centro terapêutico realmente e podia ser confundido facilmente com uma clínica, a exceção do nome estranho. Por dentro o ambiente lembrava uma taverna, com seus móveis rústicos e toda a decoração feita com réplicas de armas medievais e quadros a óleo que reproduziam batalhas e embates entre guerreiros e criaturas místicas.
No interior deste ambiente, os homens se sentiam bárbaros e se portavam como tal. Com o detalhe de que Francine aceitava em seu seleto clube apenas os bárbaros barbaramente ricos.
Naquela aura lúdica, o Mulão Ruge nem parecia um bordel. É claro que havia "as meninas", que circulavam alegremente entre as mesas como taverneiras atenciosas, servindo bebidas e esbanjando charme, cada uma representando sua personagem. Francine desempenhava com maestria a personagem que realmente era: a prostituta francesa. Sempre doce e sexy com suas echarpes de plumas rosadas, espartilhos e meia arrastão, delicadas saias de tule e cílios postiços que lhe davam um ar de boneca. Trazia uma piteira sempre consigo, embora não fumasse e um chicotinho enrolado a cintura. Apesar de aura de Lotita, havia um quê de sádico no seu tratamento com os homens, o que fazia dela a mais requisitada dentre todas, todas as noites.
Por passar grande tempo nas suítes com os clientes, ela precisava de Giovanna consigo. Já haviam trabalhado juntas em um bordel na Europa, e ela conhecia bem sua sócia italiana: era honesta, limpa, tinha um tino absurdo para os negócios e possuía uma personalidade forte e até mesmo rude. Quando qualquer tumulto acontecia no estabelecimento, o que era raro, mas podia acontecer, era Giovanna quem falava grosso com seu sotaque da Toscana e colocava as coisas nos eixos novamente sem que Francine precisasse nem mesmo lascar suas unhas. Era uma espécie de guarda costas, a sua sócia, sempre vestida como "a metaleira", com seus trajes negros, blusas com demônios estampados e bijuterias com cruzes e caveiras. Apesar de ser meio "endurecida" no sexo, o que lhe trazia poucos clientes, Giovanna tinha seu lugar cativo na vida e nos negócios de Francine por essas outras imprescindíveis qualidades.
Certa noite, pensava exatamente em todas estas coisas, quando um novo cliente passou pela porta. Pareceu um pouco desconcertado quando foi abordado entusiasticamente pela jovem Cowgirl logo na entrada. Trocou algumas breves palavras com a loira, que apontou com o chapéu de rodeio em direção a Francine.
O homem agradeceu com um aceno de cabeça e pôs-se a caminhar em direção ao bar, onde a francesa estava. Ele perscrutava o ambiente com os olhos de modo discreto, embora parecesse absorver cada detalhe. Era um homem maduro, que usava óculos de grau e um cavanhaque parcialmente grisalho. Vestia um jeans escuro e uma blusa negra com um brasão à altura do peito que lembrava um dragão. Seu corpo era volumoso e sólido, e até mesmo suas mãos largas como patas faziam com que ele lembrasse a figura de um ogro. Em contraste, seus modos lembravam os de um aristocrata quando se dirigiu a francesa.
- Senhora Francine?
- Senhorrita. - respondeu ela, exagerando ainda mais o sotaque que considerava seu charme, e sorriu - Mas pode me chamarr somente de Frrancine. Prrocurrando meus serrviços?
- Não, sinto muito, senhorita. Procuro por Giovanna. Ela está?
- Infelizmente non, mon cher. Ela teve prroblemas pessoais essa noite, e non vem. - disse, fisgada pelo ciúme - Entrretanto, non há nada que Giovanna pudesse fazerr porr você que eu non faça ainda melhor. - afirmou ela, com um meio sorriso sugestivo, enquanto esticava as pontas dos dedos para acariciar o brasão bordado no peito do homem.
Ele baixou os olhos, encabulado, e se esquivou sutilmente do contato dela.
- Temo que meu assunto seja apenas com Giovanna, senhorita Francine. Bem, lamento ter tomado seu tempo; continuarei tentando contato com ela pelo celular. Foi um prazer conhecê-la, mademoiselle. - ele apertou a mão de Francine de maneira tão formal que pareciam fechar um negócio - Se puder, diga a ela que Marcus esteve a sua procura, por favor.
Então, com um aceno de cabeça, ele se virou e seguiu para a porta. Francine acompanhava com o olhar atônito enquanto o homem de costas largas se dirigia para a saída. Que diabos fora aquilo? Por que um cliente de Giovanna se recusaria de maneira tão veemente a ser atendido por ela? Que novas façanhas sexuais estaria praticando a italiana que Francine sempre considerara ser ruim de cama?
Naquela noite a francesa custou a dormir. E antes que finalmente pegasse no sono, quase ao amanhecer, decidiu que investigaria tudo o que pudesse sobre o tal Marcus.
Na noite seguinte, Francine chegou ao Mulão Ruge já em pleno horário de movimento. Fora atrasada pela insônia da noite anterior e pelas olheiras negras que ficaram em seu rosto. Precisou de compressas de chá gelado nos olhos e uma camada extra de maquiagem para se tornar apresentável antes de sair de casa.
Giovanna estava no bar, de onde fiscalizava o movimento das meninas com olhos atentos. A italiana observava se o cliente da mesa oito não seria engraçadinho demais com a enfermeira ruiva que se exibia para ele, uma vez que ele só tinha pago por uma lap dance. Nesse momento Francine chegou e desabou na poltrona ao lado do bar, parecendo exausta. Cruzou as pernas exibindo as meias-ligas negras, com laçarotes em cada uma das coxas. Estendeu a mão direita para Giovanna, com uma expressão exageradamente suplicante, e a sócia imediatamente lhe serviu uma cuba libre lotada de gelo. A francesa ergueu os cabelos segurando-os como um coque, e encostou o copo gelado na nuca depois de beber o primeiro gole.
- Estou morrtinha.
- Estou imaginando. Você nunca chega atrasada, bela mia. O que houve?
- Nada demais. Como está sua mãe? Rresolveu tudo ontem?
- Si, grazie. Mama está ótima, novamente. Foi solamente una travessura.
- Que ótimo, Gio. - afirmou a francesa, forçando-se a dar uma pausa antes de entrar no assunto que realmente queria - Ah! Ontem a noite um cliente deixou um rrecado parra você.
- Recado pra mim?
- Oui. Pediu parra dizer que Marcus esteve aqui prrocurrando porr você.
- O Marcus? Veio aqui? - indagou a italiana, corando levemente.
- E non quis serr atendido porr ninguém. Perrguntou por você e vasou, como dizem. É seu cliente parrticularr?
- Si. Sim, é meu cliente. Não deve ter conseguido me ligar ontem. O celular estava péssimo.
- Giovanna... - iniciou a francesa, com um tom de repreensão - Exclusividade non é bom parra os negócios. Deverriam ser todos clientes da casa, non de uma só...
- Você mesma disse que ele não quis ser atendido por outra, não foi? Então não me culpe. Cáspita!
E, tendo praguejado, deixou o bar para que Francine cuidasse, e foi vagar entre as mesas, conversando com os clientes.
 
 
 
 
Três dias depois, Giovanna estava ao bar como de costume, vigiando a movimentação, enquanto Francine a observava. A italiana estava diferente, havia se arrumado mais, como se fosse a um show de rock pesado. Havia finas mechas roxas no seu cabelo escuro, o que deixava sua face habitualmente dura com uma atmosfera mais leve e sensual. Não tardou a que Francine descobrisse o porquê do visual caprichado naquela noite.
Quando Marcus cruzou a porta dupla de vidro, os olhos da italiana exibiam um brilho diferente. Ele a cumprimentou, beijando-lhe a mão, e deu um tímido "boa noite" para Francine. Estava belo como sempre, com suas roupas escuras e uma blusa onde havia um estampa frontal, retratando um mago medieval e seu dragão, a observá-lo através de uma janela de pedra. "Trouxe algumas coisas de que vai gostar, Giovanna", disse ele, levantando levemente o braço para sinalizar a maleta executiva que trazia consigo. Giovanna corou e fez um breve aceno de cabeça concordando e o conduziu sem demora para uma das suítes. Francine já se contorcia de curiosidade quando a porta se fechou, interrompendo sua visão do casal.
 
 
 
No dia seguinte, a francesa havia convocado todas as meninas durante a tarde, para o balanço mensal. Era um dia de relatórios sobre faturamento e prestação de contas, além do pagamento das meninas que, fora as gorjetas, recebiam seu salário por mês. Essas tardes nunca contavam com a presença de Giovanna, que cuidava da mãe durante o dia. Era a oportunidade perfeita para Francine inquirir suas funcionárias, longe da presença de sua sócia.
Uma a uma, Francine perguntou diretamente o que sabiam sobre o tal cliente misterioso de Giovanna. Permaneceu sem resposta até chegar a Kelly, a cowgirl, que afirmou conhecê-lo anteriormente. A francesa a conduziu imediatamente ao seu escritório privativo, a fim de obter dela todas as informações possíveis.
- Porr que Giovanna aprresentou vocês? Fizerram um prrogrrama a trrês?
- Não! - riu a loira - Foi no dia em que tive problemas com a polícia. Foi ele que apareceu para me ajudar.
- No dia em que te pegarram com drrogas?
- Exato.
Ela se calou, envergonhada. Entretanto respirou fundo e resolveu contar toda a história, vendo que Francine não desistiria de saber cada detalhe.
- Eu nunca te contei isso, por que não vinha ao caso, mas as drogas com as quais os porcos me pegaram não eram pra mim. Aquele meu namorado, o Rato, tinha acessos tão furiosos que eu acabava subindo o morro pra comprar droga pra ele. Naquela noite um PM me pegou na saída da boca de fumo. Chegando à delegacia, eu não tinha pra quem ligar, então liguei pra Gio. E ela disse que mandaria um amigo pra me ajudar.
- Ela mandou o Marcus pra te tirrarr da delegacia?
- Foi. Ele conversou longamente com o delegado, pagou a fiança e tudo o mais, e me levou pra casa de carro.
- Só isso? Está faltando coisa aí, Kelly. Da maneirra como você fala dele, nom ficarram meia horra juntos e prronto. Me conte tudo.
- Está bem. Não fomos diretamente pra minha casa. Eu estava apavorada e chorava sem parar. Então ele disse que me levaria a algum lugar onde pudéssemos conversar um pouco. Tomou um caminho que eu não conhecia e logo estávamos subindo uma serra. Ele bateu um pega na subida, com um engraçadinho que o provocou. Aquela banheira que ele dirige anda um bocado, além de ter um ronco infernal. - ela riu - A cada curva acelerada eu sentia a traseira do carro deslizar sobre o asfalto, enquanto os faróis do Fiesta novo em folha tentavam se aproximar de nós. Eu estava apavorada. Mas foi uma adrenalina tão incrível que me fez parar de chorar e esquecer a delegacia e a humilhação.
A loira se calou um momento, como se repassasse na memória as imagens daquela noite, como um filme. Francine ordenou que ela continuasse, com sua habitual impaciência.
- Quando ele parou o carro no alto da serra, estávamos em um mirante de onde se podia ver toda a cidade acesa lá em baixo. Era uma visão deslumbrante. Saímos do carro e ele me deixou sentar sobre a mala do Dodge para admirar a vista. Me perguntou se eu queria conversar sobre o que havia acontecido. - a loira levantou os olhos que mantivera baixos até então, e encarou Francine - Contei tudo a ele. Minhas subidas à boca, meu namorado drogado que brigava comigo a ponto de me fazer dormir chorando quase todas as noites, minha dependência emocional desse relacionamento falido, minha solidão... tudo. Me abri com ele naquela noite como não me abri com ninguém durante minha vida inteira. Sentia que ele me entendia e não me recriminada. E fui em frente, sem parar de falar. Acho que passei toda a minha vida a limpo naquele momento, para mim mesma.
- E ele não te disse nada? - inquiriu a francesa: queria saber sobre o homem, não a história de vida de sua funcionária mais problemática.
- Disse que eu era corajosa por encarar os fatos da minha vida com tanta sobriedade. E que eu tinha tudo para encontrar uma pessoa que me ame de verdade, por que o Rato nunca me amou. Ele me disse que quem ama cuida, quem ama não expõe o outro dessa maneira. - ela baixou a cabeça novamente, como se se sentisse envergonhada - No final da noite eu estava tão envolvida que tentei transar com ele. Só que ele não quis.
- Como assim ele non quis?
- Eu me ofereci abertamente. Eu não tinha mais nada pra dar a ele em agradecimento por tudo o que ele havia feito por mim, a não ser o meu corpo. Eu quis dar prazer a ele, como nunca quis dar a outro homem. E eu disse tudo isso a ele. Então ele me deu um beijo no rosto e me disse que, se eu quisesse agradecer, que fosse amiga dele, por que é disso que ele mais precisa.
- Esse carra é bicha?
- Eu duvido. Eu pude ver nos olhos dele o desejo sendo controlado enquanto ele se negava a me ter. Ele simplesmente foi nobre comigo, Francine. Eu nunca havia sentido isso com nenhum homem. Ele ignorou o meu corpo, e conversou diretamente com a minha alma.
 
 
 
Francine ainda permaneceu atônita em sua cadeira giratória muitos minutos depois de Kelly ter deixado o escritório. Não podia aceitar nada do que a cowgirl lhe contara. Os homens não são assim. Não existem homens assim. Homem algum resistiria a Kelly quando ela estava disposta a seduzir, com seu corpo voluptuoso e aquela carinha de menina inocente, se fosse hetero. Ela simplesmente não podia aceitar. Havia algo obscuro em toda essa história.
O pior de tudo é que a fantasia que se criava na cabeça de Francine começava a deixá-la encantada. Se fosse possível, apenas "se", um homem com essas atitudes seria um reflexo de tudo o que ela desejara um dia. Em suas fantasias de menina, era assim que seu príncipe encantado sempre fora. Era sólido, um audaz guerreiro de aparência rude, que falava pouco e sempre faziam o que era certo. Podia ser alvo do assédio de todas as mais formosas donzelas do reino, que isso não importaria. Esperaria pacientemente por sua eleita. E em seus devaneios infantis, a eleita fora sempre ela.
Fora ela. Não era mais digna de um príncipe assim, agora que estava na idade adulta. A vida a marcara profundamente, e as horríveis cicatrizes a tornaram insensível, amarga, desonesta, egoísta. Teria vergonha de si mesma se seu príncipe aparecesse hoje.  
 
A curiosidade a acossara tanto que ela resolveu endossar a imagem de si mesma, do quanto podia ser mesquinha e torpe. Girou a cadeira para o seu notebook, que possuía conexão com todo o programa de segurança. Digitou a data da noite anterior, selecionou a suíte de Giovanna nos arquivo e passou a examinar a gravação registrada dentro do quarto.
Mantinham esse sistema e essas gravações como segurança; caso acontecesse uma tragédia ou um acidente grave em uma das suítes, assim teriam material em vídeo para entregar à polícia. Havia um acordo tácito entre ela e sua sócia de que aquelas imagens jamais seriam assistidas por nenhum motivo que não fosse irrefutável. Sabia que sua curiosidade inquieta não se encaixava no caso, mas nada iria detê-la até que ela descobrisse o que estava acontecendo entre Giovanna e aquele homem tão incomum. Queria saber que artimanhas sua sócia usara para fisgar um peixe impescável.
Adiantou o vídeo até o ponto em que o casal entrou no quarto. Viu Giovanna se sentar na cama redonda forrada de cetim, sorrindo como uma menina, enquanto Marcus pousava a misteriosa maleta na cama e se ocupava com o frigobar, servido refrigerante com gelo para Giovanna e para si mesmo. Então ele se sentou frente a ela, e conversaram um pouco sobre a mãe dela e como fora a semana dos dois.
Em dado momento ele tomou os dois copos e os pôs de lado, sobre um aparador. Então deu um sorriso de quem estava completamente seguro de si, e abriu a maleta, mostrando o conteúdo a Giovanna, que exibiu uma reação entre o espanto e o divertimento. Mas bem mais espantada estava Francine, ao descobrir o quão bizarro era o conteúdo da maleta que a incomodara desde a noite anterior.
Marcus foi retirando da maleta os objetos um a um, e dando algumas explicações cada vez que passava algo às mãos de Giovanna. Havia quatro álbuns grandes, que em vez de fotografias continham inúmeros recortes de jornais e revistas, relativos a bandas de rock que Francine desconhecia. Havia ainda dois livros importados e raros, como ele mesmo explicara, e alguns DVDs e pendrives repletos de shows de bandas clássicas e de "barulho", seja lá o que isso queria dizer. Giovanna estava extasiada com tudo e fazia uma pergunta atrás da outra. Marcus explicava cada detalhe com paciência e carinho, sentindo-se recompensado com a alegria e o interesse dela. Ao final de tudo, ele disse a Giovanna que ela podia ficar com maleta e seu conteúdo o tempo que fosse necessário para assistir tudo, desde que todo o tempo necessário não excedesse uma semana. Os dois riram, e Giovanna o tranquilizou, dizendo que em uma semana sem falta devolveria tudo. Sabia o quanto ele tinha ciúme e cuidado com suas coisas, e com aquela coleção em particular.
Então veio a parte mais surpreendente. Ele olhou a italiana nos olhos, e acariciou o cabelo dela, dizendo que as mechas haviam ficado lindas. Ela sorriu e o beijou no rosto, e eles se deitaram na cama um de frente para o outro, totalmente vestidos como estavam, unidos num abraço cheio de ternura. Enquanto ele afagava os cabelos dela, ela lhe acariciava a barba, e conversavam sobre coisas íntimas dos dois, inclusive o fato de Giovanna ter uma namorada, coisa que Francine não sabia. A mulher com quem a italiana estava ha cerca de um ano constantemente a fazia sofrer, e Marcus a aconselhava sobre o relacionamento, afirmando de várias formas diferentes que o diálogo sincero é a pedra fundamental de um relacionamento e o primeiro passo para a solução de qualquer problema.
Depois de conversarem por horas, o silêncio tomou conta do quarto. Continuavam acariciando um ao outro ternamente, mas não houve mais palavras. Parecia que apenas a presença e o conforto de estarem juntos era o suficiente. Permaneceram assim, silenciosos e aconchegados, até que o avançar da hora o fez despedir-se dela para ir embora.
 
 
Na noite que se seguiu a Francine ter assistido ao vídeo de segurança, a francesa retornou cedo ao Mulão Ruge, para aguardar a chegada de sua sócia. Estava lindamente vestida, com um vestido nos estilo das dançarinas de can can, rodado e mais curto na frente do que atrás, e com muitas camadas de babado interno. Sentia-se poderosa vestida dessa forma, e tinha os cabelos presos em um elegante coque alto adornado com uma flor negra que lembrava um crisântemo.
Esperou o passar das horas com certa impaciência, perguntando-se internamente por que sua sócia estava atrasada justamente naquela noite. Quando finalmente Giovanna chegou, Francine já se sentia irritada como uma jaguatirica engaiolada. Praticamente avançou sobre sua sócia assim que a viu.
- Está atrrasada!
- Ma quê?! Quinze minutos, ragazzina! Qual seu problema hoje?
- Prreciso falarr com você, em parrticularr. Vem comigo. - disse a francesa acenando com a cabeça na direção de seu escritório.
Assim que a francesa fechou a porta do escritório atrás de si, passou a chave para trancá-la, coisa que não tinha o hábito de fazer.
- Que diabos a está deixando tão impertinente, Francine?
- Querro lhe fazerr una perrgunta, e querro que seja absolutamente sincerra, oui?
- Va benne... pergunta. - ordenou a italiana.
- O que você sente pelo Marcus, Giovanna?
A italiana ficou estarrecida por um momento, sem articular uma palavra. Esperava que Francine perguntasse qualquer coisa, menos sobre os sentimentos dela e principalmente sobre esses sentimentos em relação ao Marcus.
- Por que pergunta? - retorquiu, desconfiada.
- Querro saberr, Gio; prreciso saberr. - respondeu Francine com sinceridade, e respirou profundamente, tentando serenar seus pensamentos - Me diga, porr favorr. É mais imporrtante parra mim saberr se você o ama do que se estão tendo um caso. - e insistiu na pergunta - Está apaixonada porr ele, Giovanna?
- Não. - afirmou a italiana com serenidade, observando na expressão de sua sócia que havia algo de muito sério nessa questão - Não estamos apaixonados, nem ele, nem eu. E não temos um caso. Somos amigos, muito amigos. Marcus é como un fratello mio... estou dizendo um irmão. Capisci?
- Está sendo honesta comigo, Gio? É imporrtante.
- Si, cara mia. Por que tantas perguntas?
- Porque estou serriamente interressada nele, chérrie.
 
 
Duas noites mais tarde, Marcus abria a porta de seu apartamento para Francine, que chegou pontualmente como o combinado. Vestia preto da cabeça aos pés e estava linda no corselet de veludo que marcava as curvas de seu corpo, e fazia um belo conjunto com a saia longa e volumosa, e as luvas de cetim que ultrapassavam os cotovelos. No pescoço trazia uma gargantilha de contas negras que lhe caía pelo colo nu como ornamentos de um lustre, e a maquiagem e o cabelo preso para cima tinham algo de sóbrio e sensual ao mesmo tempo. Marcus pareceu bastante impressionado enquanto aquela dama gótica cruzava sua sala como um anjo negro.
Tentando não perder o foco, ele lhe serviu uma água tônica com limão e gelo assim que ela se acomodou no sofá. Então passou a lhe mostrar o que ela viera ver.
Em suas mãos havia vários CDs e DVDs de Folk Metal, e ele falava com desenvoltura sobre a mistura de som pesado com música celta, sobre os instrumentos que reproduziam com perfeição os medievais como a mandola e a viola de roda, e sobre bandas que tocavam esse estilo como Eluveitie e Arkona. Discorreu sobre os músicos e suas crenças, sobre as mensagens mitológicas nas letras, e sobre tantos detalhes que deixaram Francine fascinada. Enquanto os acordes do álbum Helvetius enchiam a sala, ela admirava o homem que fala com paixão sobre música e mitologia. E estava cada vez mais certa do propósito que a levara até ali.
- Então, creio que seja material suficiente para encher com música mais adequada sua taverna todas as noites, mademoiselle. - ele disse, encerrando os esclarecimentos.
- Oui! - ela sorriu - Agrradeço prrofundamente pelo emprréstimo de seus CDs e por todas as explicações. Tudo o que me contou foi muito interressante. Sua companheirra certamente adimirra o mesmo tipo de música, non?
- Seria o lógico. - ele concordou com um erguer de sobrancelas - Mas, no momento, não tenho com quem dividir meus gostos.
- Você e Giovanna non estão juntos?
- Não. - ele respondeu sem se alterar em nada - Giovanna é uma amiga muito querida. Mas é apenas isso. Nada mais.
- E seu corração está aberrto parra a chegada de uma companheirra, Marcus? - indagou a francesa, que agora estava de pé frente a ele, olhando-o nos olhos - Está prrocurrando por alguém?
- Não, não estou procurando. - respondeu ele, muito sério - Acredito que as pessoas certas nos chegam no momento certo, sem que precisemos procurar.
Francine ficou bastante abalada com a frase dele. Era um pensamento profundo, cheio de sensibilidade. Nunca conversara com um homem daquela forma.
Ela havia se aproximado dele, lânguida e receptiva e ele continuava inabalado. Qualquer homem que conhecera em toda a sua vida já a teria beijado ou estaria prestes a fazê-lo. Mas Marcus não dava sinal de que moveria um músculo.
- Acha que posso serr a pessoa cerrta, Marcus? - ela provocou, por fim.
- Se quiser fazer as coisas do jeito certo, Francine, podemos descobrir. - ele afirmou, com uma expressão de que se encontrava inteiramente compenetrado nela.
- E o que serria o jeito cerrto?
- Procuro uma companheira, Francine. Uma mulher que goste da minha companhia, que queira estar ao meu lado, para que possamos compartilhar nossos momentos bons e maus. Uma mulher que seja minha amiga, minha amante, minha irmã... essa mulher será minha amada, minha razão para lutar e meu descanso após a luta. Para a mulher que me amar com esse comprometimento eu darei meu coração, arrancando-o do peito e entregando-o nas mãos dela sem receio. Por que é apenas dessa maneira que eu sei amar, Francine.
- É isso tudo o que eu querro parra mim. - ela afirmou, convicta, mergulhada nos olhos castanhos do homem a sua frente.
 
 
 
 
Epílogo
 
- Já escolhi a cor como me pediu, mademoiselle.
- Oui! - Francine se virou e sorriu, em expectativa, enquanto continuava mexendo o recheio de leite condensado e limão - E que corr elegeu o meu namorrado?
- "Rock". - ele riu, admitindo o clichê, e admirou mais uma vez o vidro de esmalte enquanto explicava - Não escolhi pelo nome, e sim pela cor. Há outros pretos em sua frasqueira de esmaltes, mas este é realmente negro e tem uma pigmentação metálica verde muito bonita. Se houvesse uma tinta automotiva exatamente assim, eu com certeza pintaria meu carro com ela.
- Então está escolhido. - ela afirmou, animada - Pintarrei as unhas com ele, assim que terrminar de fazer minha obrra prrima.
- Que seria...?
- Torta de limão. Non vai se arrependerr de prrová-la, mon cherr. - ela piscou, com um sorriso maroto.
- Quer ajuda, Francine? – ele se ofereceu, de boa vontade.
- Ah, que lindo! Como poderrei recusarr? Prrecisarrei de ajuda com a farrinha de trrigo daqui ha pouco. Porr enquanto, um abrraço já ajuda bastante.
Marcus a abraçou por trás, pousando o queixo barbado ao lado do pescoço dela. Enquanto a admirava cozinhar, indagou:
- O que mesmo estamos comemorando hoje, Francine?
Ela demorou um momento para responder:
- Duas coisas. A prrimeirra é que, finalmente, consegui uma aluna de frrancês. Desde que me afastei da rrotina do Mulão Ruge estou inquieta porr não terr um trrabalho, além de fazerr a contabilidade parra Giovanna. Agorra vou começarr a darr aulas!
- Muito bom, Francine! Fico feliz, querida. Que essa seja a primeira de muitas alunas para você. - ele disse, ainda abraçado a ela da mesma forma.
- Obrrigada... - ela respondeu, respirando fundo
- E qual é a segunda comemoração? - ele indagou.
- Fazemos dois meses de namorro hoje. - ela explicou, com a voz mais suave que de costume.
- Fazemos? - ele exclamou, um pouco encabulado - Nunca me lembro de datas assim, me perdoe.
- Perdoo se você parrar de falarr com essa barrba no meu pescoço... - ela ronronou - non vou conseguirr terrminarr a torrta dessa maneirra...
Ela roçou a lateral do rosto na barba dele, enquanto ele a apertava mais para perto de si. Francine começou a mexer os quadris lentamente, atiçando reações imediatas no corpo dele, e sentindo-se recompensada por fazê-lo perder o controle tão facilmente.
- Francine... assim não vai terminar sua torta... - ele sussurrou, lutando para se conter - eu não sou de ferro...
- Non? - ela deu um sorriso de lado, com uma expressão de menina travessa - Com essa rrigidez que sinto, eu jurrava que erra...
Ela se virou e o beijou com paixão, e ele correspondeu na mesma intensidade. Ela arranhava as costas dele, enquanto se acariciavam, perdidos naquele beijo eterno e ofegante.
Em poucos minutos a torta havia ficado para trás e estavam na cama. À medida que as carícias se tornavam mais quentes, Francine abria mais e mais portas para ele. Queria compartilhar com aquele homem o que jamais compartilhara em sua vida. Queria que o amor fosse profundo, arrebatador, selvagem, extasiante. E ela o provocava cada vez mais devassamente. Em dado momento ele parou, ofegante, e acariciou os cabelos desarrumados dela com uma ternura angustiada. Havia um esforço imenso nele para controlar o ímpeto que explodia dentro dele, quando falou:
- Francine... vá devagar, minha menina. Eu te amo, Francine, muito... verdadeiramente. Você merece todo o meu amor, e todo o meu respeito. Mas me enlouquecendo desse jeito... você desperta o animal em mim.
- Essa é a última frronteirra, mon cherr. - ela afirmou, enquanto ardia em desejo - Querro você sem barreirras, querro toda a sua paixão, querro tocarr o céu com você cada vez que fizerrmos amorr. Querro conhecerr esse animal que me esprreita como um prredadorr e que você tem mantido trrancado todo esse tempo. Querro sentirr você, porr inteirro.
Marcus a observava, perscutando cada reação do rosto dela. Então algo nele parou de lutar. Ele a encarou com seriedade e enrolou os cabelos dela firmemente em uma das mãos, enquanto o outro braço a puxava com firmeza para junto de si. Então mergulhou em sua boca, beijando sua amada com o calor e a selvageria de um guerreiro que vem da batalha.





|
Gostou?
4

DICAS: "De encontro a" x "ao encontro de"

Posted by Samantha Freitas on 16 de setembro de 2013 06:00 in , , ,

Vira e mexe, nós esbarramos nessas expressões. E a maioria das pessoas erra ao escolher o jeito de falar. Até porquê, embora as locuções sejam parecidas, elas significam exatamente o inverso uma da outra.

Basicamente, as expressões são formadas pode PREPOSIÇÃO + ENCONTRO + PREPOSIÇÃO. Então, como saberemos qual idéia é a favor e qual idéia é contra?

Então, o sentido de cada uma delas dependerá da disposição das preposições internas, ou seja, da posição destas ao lado de “encontro”: antes ou depois.





Ao encontro de:  
Tem significado de “estar de acordo com”, “em direção a”, “favorável a”, “para junto de”


Andrade cobrou escanteio da esquerda, e a bola foi ao encontro de Carlinhos Bala, que estufou a rede. (A bola foi em direção ao Carlinhos)

Meu novo trabalho veio ao encontro do que desejava. (Meu novo trabalho está de acordo com o que desejava.)

Vamos ao encontro de nossa turma. (Vamos para junto de nossa turma)

Essa lei vem ao encontro dos interesses da população. (Essa lei é favorável aos interesses da população)

Seu voto vai ao encontro de nossos interesses. (Seu voto vai a favor de nossos interesses.

  
De encontro a:  
Tem significado de “contra”, “em oposição a”, “para chocar-se com”
 


O jovem dirigiu bêbado e foi de encontro à árvore. (O jovem dirigiu bêbado e chocou-se com a árvore).

A polícia avançou de encontro aos agitadores. (A polícia avançou contra os agitadores)
 
As torcidas adversárias correram uma de encontro à outra. (As torcidas correram para chocar-se uma com a outra).

Esta questão está indo de encontro aos interesses da empresa. (Esta questão está indo em oposição aos interesses da empresa).
 
A decisão tomada foi de encontro às reivindicações do sindicato. (A decisão tomada foi oposta às reivindicações do sindicato).


 




Viu como essas preposições nos enganam? É importante sempre ficarmos atentos para não nos enrolarmos conseguirmos interpretar e sermos interpretados da maneira correta.



|
Gostou?

Copyright © 2009 Retalhos Assimétricos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.